| Ensinando sem Saber | |
Editorial publicado no Zero Hora
São chocantes os resultados da auditoria que o Tribunal de Contas da União realizou na rede pública de educação para aferir a situação do ensino no Brasil. Entre março do ano passado e fevereiro deste ano, representantes do TCU e dos tribunais estaduais visitaram 580 escolas de Ensino Médio em todo o país, com exceção de São Paulo e Roraima, que não quiseram participar da auditoria.
Foram avaliados aspectos relativos a quatro eixos: cobertura, professores, gestão e financiamento do Ensino Médio. Também fizeram parte da análise aspectos relativos à oferta de vagas, à disponibilidade e formação de professores, à gestão das redes de ensino e das escolas e à qualidade e veracidade das informações sobre o financiamento do Ensino Médio em nosso país.
O levantamento indicou a carência de 32 mil professores com formação específica nas 12 disciplinas obrigatórias. Significa que aulas de química, física e sociologia, entre outras, estão sendo ministradas por docentes que pouco sabem sobre as respectivas matérias ou, o que é pior, não estão sendo ministradas por professor algum. O estudo também revela que mais de 60 mil professores concursados estão fora da sala de aula, ocupando cargos de direção e funções administrativas ou cedidos a órgãos diversos. Cerca de 5 mil atuam em áreas que nada têm a ver com a educação.
O mais preocupante, porém, é a quantidade de professores que quebram o galho, ministrando aulas sem ter formação na disciplina para a qual foram designados. Desta forma, não há como qualificar a educação. Após a investigação, os auditores concluíram que a rede pública carece de padrões mínimos de qualidade, conforme determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O mau gerenciamento dos recursos também aparece fortemente: declarações feitas pelos governos estaduais no Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação divergem das informações de outras fontes de dados de execução orçamentária.
Por isso o TCU já determinou ao Ministério de Educação que apresente um plano de ação definindo modelos de avaliação e padrões mínimos de qualidade, para que possa estabelecer um valor mínimo de gasto por aluno que sirva de parâmetro orientador para os Estados. Além disso, o tribunal está repassando às secretarias estaduais de Educação as conclusões sobre as principais deficiências encontradas na auditoria.
Diante de mais esse diagnóstico da educação brasileira, que continua ocupando posições constrangedoras nos rankings internacionais, mais uma vez se conclui que o problema principal está na má gestão _ o ponto gerador do círculo vicioso que leva a deformações extremas, como a de professores ensinando coisas que nunca aprenderam.
(Zero Hora)
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Por Sucena Shkrada Resk*, em Campo Grande (MS)
“O rio Taquari está indo embora e ficando estreito”. Essas palavras são de Deolinda Soares Cunha, 58 anos, da comunidade de Cedrinho, na região do Pantanal do Paiaguás, às margens do rio Taquari (MS). A ribeirinha, de hábitos simples, mora há 58 anos nessa área, em uma casa revestida de palha e vive da agricultura de subsistência, e conta que hoje o que mais a preocupa é a morte do rio.
O biólogo José Sabino, da Universidade Anhanguera e Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (MS), explica que nos últimos 40 anos, houve um processo de assoreamento drástico no Taquari. “Hoje 5 mil km 2 – correspondentes a 4% do Pantanal foram comprometidos”, diz. Boa parte da erosão se deve a atividades extensivas de pecuária e da agricultura na região.
A influência sobre o modo de vida das comunidades locais é crescente. Segundo a dona de casa, a qualidade do poço artesiano que usa há tantos anos também está sendo prejudicada. “A água começou a aparecer com uma cor estranha. Deixo assentar a sujeira no fundo para não dar doença e coloco cloro no filtro”, relata. Franzina, mostra as veias saltadas em seu braço e conta que o esforço de retirar animais que caem no poço causou essas marcas em seu corpo com o tempo. “Tenho que tirá-los com as mãos. Até tamanduá-bandeira e cobra já encontrei por aqui”. Ela cita que encontra dificuldade para encontrar apoio para colocar proteção, como um cercado nessa área.
Deolinda, como outros ribeirinhos, revela ainda outros contextos da dificuldade vivenciada nesse pedaço do país, de ordem logística, para quem vive nas proximidades do rio. “Até Corumbá, que é a cidade mais próxima, chegam a cobrar R$ 50 de barco e a gente não tem isso. Quando precisamos fazer compras acabamos pagando frete de R$ 10 por cada volume. Por isso, vamos de três em três meses à cidade”, diz ela que mora com seu marido, dois filhos, uma nora e seu primeiro neto.
Apesar dos problemas, a pantaneira afirma que é feliz e gosta de onde vive, mas deseja um futuro melhor para seu neto e que as “autoridades” deem atenção à sua região. “Com fé, tudo dá certo! E olhando para o alto, como se estivesse vendo o lugar onde mora, também se resigna, lembrando de fatos em seu cotidiano que fazem com que abra um sorriso fácil. Ela se orgulha dos pés de acerola, caju, coco, goiaba, manga e jenipapo que plantou em seu quintal no meio da mata. Mas desabafa – “O que a gente faz se acabar a água? A natureza que colocou aquele leito ali. Ninguém vive sem ela. Até um passarinho precisa de um gole de água”.
Conheci ‘dona’ Deolinda, no último dia 10, em Campo Grande (MS). Ela concedeu a entrevista, após participar do evento “Coalizão Cerrado – Pantanal”, uma realização da Rede Cerrado e da ONG Ecoa – Ecologia e Ação.
(Relatos de bastidores durante a viagem a Campo Grande, a convite da Fundação Toyota do Brasil, quando fui conhecer a biodiversidade pantaneira e o Projeto Arara Azul)
*Sucena Shkrada Resk, editora-assistente da Editora Horizonte
Fonte: Editora Horizonte





