segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O papel e o valor do ensino da geografia, Pierre Monbeig

Fonte: http://www.geocritica.com.br/texto09.htm

O papel e o valor do ensino da geografia
Pierre Monbeig


Concordamos todos que, se a maior parte do público culto tem uma idéia mais ou menos exata do que são a biologia, a geologia, a economia ou a sociologia, o mesmo público não acompanha o progresso das ciências geográficas, quando não ignora sua existência. Para uns a geografia é confundida com narrativas de viajantes; um geógrafo é um explorador, a rigor um cartógrafo;  traz de suas viagens narrativas agradáveis de ouvir-se, sobretudo se tem a habilidade de ilustrá-las com belas imagens. Para outros, talvez mais numerosos, a geografia é uma lembrança extremamente penosa de sua infância. Seu nome evoca listas indigestas de nomes de lugares ou dados numéricos, lições atrozes que somente os menos inteligentes e os mais obstinados de nossos condiscípulos chegavam a recitar razoavelmente. Os espíritos brilhantes, ao contrário, mostravam-se rebeldes. E ficamos satisfeitos quando nossos filhos recebem uma nota má porque não souberam de cor a lista das estações da Central do Brasil entre Rio e São Paulo, ou as altitudes exatas dos vulcões andinos; a fraqueza em geografia é uma espécie de teste de inteligência!
Portanto, na melhor das hipóteses, a geografia é tida como a irmã intelectual do turismo. Na pior elas hipóteses, a geografia é uma tortura gratuita imposta às crianças e pergunta-se como seres sensatos puderam tornar-se geógrafos!  Se são corretos esses dois modos de ver, é claro que a geografia é inútil, quando não perigosa; é um absurdo ensiná-la, mais ainda praticá-la, e torna-se urgente fechar também os departamentos de geografia das faculdades de filosofia e instituições como o Conselho Nacional de Geografia! A menos que consigamos mostrar que a geografia contribui para o enriquecimento das mentes jovens e a sua formação. A menos também que possamos provar a sua utilidade num mundo onde toda e qualquer ciência é também uma técnica, onde toda pesquisa leva a dar um instrumento útil à coletividade. É mister, portanto, estabelecer o valor a geografia no ensino e determinar sua utilidade como moderno instrumento de trabalho.
Comecemos fixando a posição exata da geografia moderna, diante da importância quase exclusiva que atualmente se dá à memorização no ensino. Geógrafo algum deixará de condenar esta pseudo-geografia.Todavia, convém lembrar que a verdadeira pedagogia não deixa de recorrer às funções da memória. Estas só se desenvolvem na medida em que passaram por um treino inteligente, assim como acontece com todas as outras atividades psicológicas ou físicas. Também não se trata de oposição sistemática a qualquer ensino de memória, mas de oposição radical ao ensino exclusivamente baseado na memória e que a atravanca com um trambolho inútil. Nada se pode aprender sem esforço de memória e sem a aquisição de uma nomenclatura, por mínima que seja. 0 exercício de matemática pressupõe o conhecimento de certas fórmulas e, nesta aprendizagem, memória e inteligência foram ambas treinadas e desenvolvidas. 0 conhecimento da literatura exige que o aluno retenha não somente nomes de autores e de obras, mas dados cronológicos, sem os quais seria total a confusão. Assim como não se pode ter conhecimentos históricos sem adquirir uma sólida bagagem de datas e de fatos, não se poderia ter bom conhecimento geográfico sem uma base de nomenclatura. É apenas um ponte de partida, mas indispensável. Por fim, ainda no âmbito das preocupações utilitárias, não esqueçamos que a vida corrente requer de cada um de nós esse conhecimento mínimo denomenclatura geográfica, que é, para a ciência geográfica, o que a tabuada de multiplicação é para a matemática: nomes de cidades, de rios, de montanhas, de produtos nacionais e estrangeiros, aquisições de nossa memória infantil de tal modo integradas em nós mesmos, que já nem nos lembramos de quando as adquirimos.
Um bom ensino de geografia, portanto, como qualquer outro ensino, não pode deixar de recorrer à memória. É necesssário reduzir sem medo a massa de nomes insípidos e de pormenores sem valor; é necessário, sobretudo, reduzi-la a proporções mais justas. Impõe-se uma escolha ao professor, a quem cabe a difícil tarefa de exercitar com inteligência a memória dos alunos. E assim ergue-se diante de nós o problema do preparo do professor de geografia, ao qual teremos que voltar. Mas, mesmo reconhecendo até que ponto a maior parte dos professores de geografia foram pouco ou mal preparados para seu trabalho, ainda assim causa espécie que educadores, e mesmo simplesmente homens normais dotados de bom senso, mostrem-se tão obstinados em transformar a geografia em instrumento de tortura para crianças. Qual a fonte desse erro fundamental que faz confundir ensino da geografia com memorização?
      Há o desconhecimento total da geografia e a convicção de boa fé, mas errônea, que um nome, um dado, são "fatos geográficos" e que, a partir deles se elabora a ciência geográfica Ora a geografia não é uma ciência de fatos isolados simples, passíveis de serem conhecidos por si e em si. Neste mesmo erro incorrem os que acreditam ensinar uma história científica porque ensinam "fatos" históricos, acontecimentos e datas. Para melhor me tornar compreendido permitam-me usar a palavra irônica dum historiador da Idade Média, Marc Bloch, que, tomando como exemplo a queda dum grande ministério da III República Francesa, o ministério Jules Ferry, parte para a pesquisa do fato histórico preciso, concernente a este evento político.
Qual o fato e em que momento ocorreu? Surgem as diversas hipóteses possíveis: o momento em que o presidente da Câmara de Deputados proclama o resultado do escrutínio fatal? O momento exato (pois um historiador "científico" deve fazer empenho em ser exato) no qual um deputado, desconhecido, seja dito de passagem, depositou na urna o voto que fez pender para um lado o prato da balança parlamentar? Não seria pre­ferível fazer referência à visita constitucional que o presidente do Conselho, em minoria, fez ao presidente da República para entregar-lhe a demissão ou mais precisamente, e ainda mais cientificamente, ao minuto em que o chefe de Estado aceitou a renúncia do seu ministro? Pode-se ainda hesitar e, desejando-se precisão histórica e jurídica ao mesmo tempo, poder-se-ia admitir que, historicamente, a queda do gabinete Ferry se situa no momento em que saiu das rotativas o número do jornal oficial da República Francesa, no qual estava impresso o texto oficial da demissão.
Desculpem-me por esta digressão pouco séria pelo terreno dos historiadores. Mas a lição que Marc Bloch daí extraiu é clara: o fato histórico não se reduz a uma simples data; o verdadeiro historiador não se esgotará numa investigação, de aspecto po­licial, das aparências do fato, pois sabe que o interesse histórico não reside nas minúcias cronológicas mas sim na seqüência comple­xa das causas e conseqüências da queda do ministério Ferry. 0 bom professor de história procurará tornar compreensível esta seqüência complexa constituída por múltiplos e pequenos fatos cronológicos, cuja reunião constitui um fato histórico. A história é diferente da cronologia.
Transfira-se o exemplo do historiador para o campo da geografia e chegaremos às mesmas conclusões. É erro comum e persistente pretender tomar e ensinar fatos geográficos isolados e atomizados. Não é a altitude das Agulhas Negras que é um fato geográfico, mas o conjunto do maciço, constituído por certas categorias de rochas, situado num determinado conjunto orográfico, submetido a certas condições climáticas que determinam certa distribuição de vegetação, possibilitando certos modos de ocupação do solo pelo homem e tornando possíveis certos produtos. Se quisermos um exemplo de geografia humana, pode­mos encontra-lo na estação D. Pedro II da Central do Brasil. A estação, em si, não é um fato geográfico; o fato geográfico é o movimento dos trens, dos viajantes, das mercadorias, a sua pro­veniência, o seu destino; fato geográfico serão também as con­seqüências da presença dessa estação na paisagem do bairro da capital onde se encontra, a circulação urbana e seu ritmo cotidiano e estacional, uma determinada localização dos ramos de comércio ligados a estação da estrada de ferro, etc.. Dizer­ que as Agulhas Negras tem x metros de altitude ou que a estação D. Pedro II está situada em tal rua do Rio de Janeiro, não satisfará o geógrafo, embora sejam duas afirmativas indispensáveis, mas que são apenas a sombra enganadora do fato geográfico. O geógrafo procurará o conjunto de fenômenos, como os que acima enumeramos rapidamente, e os laços que os unem e fazem deles um todo vivo.
Portanto, a noção de fato geográfico tal como é correntemente admitida é errônea e deve ser corrigida. Se ligarmos a noção de fato à idéia de irredutibilidade, de precisão rigorosa e de valor intrínseco, poderemos quase dizer que não existe fato geográfico e que o geógrafo não se preocupa em estudar "fato" desta ordem. A pesquisa geográfica trata dos complexos de fatos e são esses complexos que, por sua localização no globo, são verdadeiros "fatos" geográficos. Cabe ao geógrafo explicar esta localização, procurar-lhe as conseqüências, examinando as relações, ações e interações que unem uns aos outros os elementos constitutivos do complexo geográfico. Complexo geográfico, sim, porque se localiza e porque implica em ações recíprocas mutáveis do meio natural e do meio humano. A variedade dos componentes do complexo geográfico é tanto maior quanto mais elevado é o grau de civilização técnica alcançado pelo grupo humano, existente há séculos, se não milênios, e muito numeroso. 0 complexo geográfico constituído pela zona açucareira do Nordeste é, provavelmente, de estudo mais delicado que o complexo geográfico amazônico, mas sua análise recorre menos, aparentemente, as disciplinas irmãs da geografia, que não seriam exigidas pelo estudo do complexo geográfico "Rio de Janeiro".
A título de exemplo e de maneira muito esquemática, gostaria de indicar o possível ponto de vista do geógrafo diante de um complexo geográfico industrial. É sabido que a Lorena, região francesa, encerra no seu subsolo enormes reservas de minério de ferro e importantes jazidas de hulha, isto é, as bases de poderosa indústria metalúrgica. Não possuindo esse carvão a qualidade exigida para a fabricação do coque, os metalurgistas lorenos compravam sistematicamente o coque fabricado na Alemanha, mais precisamente no Ruhr. Há quatro ou cinco anos atrás, os técnicos franceses conseguiram novos processos que permitem tratar o carvão loreno e obter assim a moinha de coque, utilizável in loco. Trata-se de uma invenção técnica cujos pormenores não interessam a geografia, mas que começa a ter conseqüências de ordem geográfica pois, a partir desses processos novos, desenvolve-se e complica-se o antigo complexo geográfico loreno. Em primeiro lugar dá-se o desenvolvimento das indústrias metalúrgicas pesadas, que arrasta o das indústrias mecânicas mais leves. Esse desenvolvimento industrial pressupõe um afluxo de mão-de-obra, operários, em­pregados de escritório, engenheiros, diretores, acompanhados ou não de suas famílias. Paralelamente, assiste-se a abertura de novas usinas, ao aumento da população urbana composta de elementos heteróclitos (inclusive numerosos operários norte­africanos). Parece que essas novas atividades industriais atraem uma parte dos trabalhadores rurais e, em conseqüência, a produção agrícola reduz-se ou é orientada para novos produtos. Ao mesmo tempo, as indústrias novas fornecem adubos químicos que, mais numerosos, mais variados, menos custosos, determinarão uma evolução das culturas, dos sistemas agrários, dos rendimentos e, portanto, dos níveis de vida dos agricultores. Encontramo-nos em presença de uni conjunto de fenômenos estreitamente ligados entre si e reagindo uns sobre os outros. Seria ainda necessário ressaltar que, para serem compreendidos, deve-se conhecer a estrutura do solo onde se situam as minas de ferro e de carvão, a hidrografia de superfície ou subter­rânea que condiciona a alimentação dos homens e boa parte do trabalho industrial, e a circulação por via aquática, rios e canais. Igualmente, a rede de vias de comunicação deverá ser ampliada a fim de permitir não somente a saída da produção mas também a chegada dos materiais de construção e produtos de alimentação necessários à enorme população que se reúne a volta das minas, e junto aos escritórios, serviços públicos, etc.. Esta é a razão, entre outras, por que se projeta para breve a execução dos trabalhos do Mosela e a eletrificação da via férrea que une a Lorena à região industrial e agrícola do norte da França. A possibilidade de utilizar o carvão loreno reduzirá as compras de coque proveniente do Ruhr, determinando a modificação das correntes de tráfego. Prevê-se desde logo que esta nova situação econômica, indiretamente dependente da presença da hulha e do ferro em determinada região, facilmente localizável, não deixará de trazer conseqüências que atingirão mais longe que o quadro regional, sairão do domínio econômico e ecoarão no terreno internacional. Por fim o aperfeiçoamento de novos processos técnicos é oneroso (as pesquisas de laboratórios também o foram); não pode ser realizado por empresas medianas, mas por associações novas, financiadas por grandes empreendimentos metalúrgicos. Isto significa que a estrutura econômica das empresas lorenas evolui para unia concentração cada vez mais acentuada. Por sua vez. a estrutura financeira, fortemente concentrada, vai agir como fator geográfico, pois acarreta a concentração espacial. Centros mais modestos de indústria metalúrgica dificilmente poderão resistir á concorrência da poderosa indústria lorena, também apoiada nos recursos naturais, dotada de equipamento moderno e escorada por forte organização financeira. Já se assiste a migrações de indústrias promovidas pelas grandes empresas e a redistribuição regional dos diferentes ramos da produção.
Este é o complexo geográfico, em vias de organização, a partir de aperfeiçoamentos técnicos. Fomos forçados a simplificar e resumir a exposição dum processo infinitamente mais complicado do que aparece aqui. Mais uma prova da delicadeza do complexo geográfico. Este se exprime antes de tudo na paisagem, a qual, formada una e indissoluvelmente pelos elementos naturais e pelos trabalhos dos homens, é a representação concreta do complexo geográfico. Por esta razão o estudo da paisagem constiui a essência da pesquisa geográfica. Mas é absolutamente indispensável que o geógrafo não se limite á análise  do cenário, à apreensão do concreto. A paisagem não exterioriza todos os elementos constituintes do complexo. Nem sempre nela se encontrarão expressos com clareza os modos de pensar, as estruturas financeiras que são, entretanto, parcelas apreciáveis do complexo geográfico. Outro perigo: a limitação do campo de estudo geográfico à paisagem ameaça  levar o pesquisador ao recurso exclusivo da descrição. Este olha, observa minuciosamente e com perfeito espírito científico, mas tende a esquecer o essencial, que é a explicação. Satisfaz-se com ser uma excelente máquina fotográfica e, nesse jogo atraente, pren­de-se menos à análise dos processos do que à sua descrição. Passa ao lado dos problemas, pois, submerso pela massa dos fa­tos observados, já não pode distingui-los com clareza. A paisagem é um ponto de partida, mas não um fim. Resulta do complexo geográfico, sem confundir-se com ele.
          Espero ter explicado suficientemente até que ponto nossa geografia se preocupa mais com os laços que dão origem ao complexo geográfico, do que com os fatos isolados que o compõem. Fatos de origens diversas, umas físicas, outras biológicas ou históricas, econômicas ou psicológicas, associam-se em determinados setores do planeta. A associação deles é, às vezes, produto do meio regional, mas caracteriza uma região que pode ser cartografada e cuja extensão é a mesma do complexo geográfico. Estamos longe da simplicidade, de aparência engana­dora do pretenso fato geográfico isolado e conhecemos agora o que constitui o tema fundamental da pesquisa geográfica moderna. Não é de admirar que esse bom geógrafo, viajante impenitente por itinerários estranhos, colecionador de nomes exóticos e evocadores, se tenha tornado um personagem sério, um desses cientistas que, por vias diferentes mas com o mesmo amor, ocupa-se em decifrar a complexidade de tudo que existe no globo. Para compreender essa evolução da geografia, basta pensar que ela acompanhou o mesmo ritmo das demais ciências naturais ou sociais. Basta-nos a reduzida experiência individual do cidadão que vive nos meados do século XX para ensinar-nos que nada é simples. Não seria normal que essa mes­ma descoberta escapasse ao geógrafo... Possuímos todos suficiente conhecimento do inundo para saber que nada é mais mutável que o comportamento das sociedades humanas diante do meio natural. Vivemos mesmo esta grande experiência que é o domínio cada dia mais completo do meio por nossa ciência, por nossos técnicos, por nossos meios de produção. Esta revolução nas relações entre as sociedades humanas e os meios naturais é muito recente, e diante de nossos olhos, adquire proporções inéditas. Ainda há poucos anos poder-se-ia acreditar que a habilidade dos homens seria impotente para mudar os climas, agir sobre o céu. E, entretanto, até mesmo esse limite se esboroa. Diante de tal revolução não causa espanto verificar a inversão dos termos do problema geográfico. 0 pensamento científico do século XIX foi grandemente dominado pelo progresso das ciências naturais. A descoberta da natureza era um assombro muito recente. Por outro lado, não parece que as sociedades humanas suscitassem problemas tão graves quanto as ciências; era então a grande época da conquista das liberdades políticas, mas não ainda a das angústias econômicas e sociais. Os geógrafos partilhavam com seus contemporâneos a tranqüila confiança nos destinos humanos, mais ou menos convencidos de que o melhor conhecimento da natureza acabaria por conferir à humanidade o poderio total, garantia de sua felicidade. A estrada do progresso abria-se para esse horizonte. Nesse clima filosófico, era normal que a geografia física se avantajasse frente à geografia humana e que as imposições do meio fossem consideradas a chave do comportamento humano. Os mecanismos causais pareciam relativamente simples.
 Se, desde então, todos os conhecimentos científicos e suas aplicações técnicas progrediram bem além do que seria de esperar, nossa inquietação cresceu terrivelmente. Guerras, revoluções, fome, desemprego, vida em campos de concentração, aniquilaram toda tranqüilidade; são, como as Erínies, a compensação do "progresso". Se já não duvidamos do poder sobre a natureza que nos confere a ciência, o homem [a sociedade] torna-se o centro de nossa preocupação. Por um paradoxo apenas aparente, quanto mais se desenvolvem ciências e técnicas, mais duvidamos do futuro de nossas sociedades. Os geógrafos são arrastados para o movimento do pensamento da época atual, da mesma maneira como o haviam sido seus predecessores em tempos mais eufóricos. Por suas próprias pesquisas que os colocam, tal corno muitos outros pesquisadores, em contacto imediato com os homens, não podem escapar a inquietação hodierna. Automaticamente, o homem ocupa o centro das pesquisas. Em lugar de partir das condições ambientes para chegar aos grupos humanos, a geografia tende cada vez mais a tomar estes últimos como ponto de partida. A essa substituição dos termos dos problemas geográficos corresponde o abandono das explicações unilaterais. Nada mais é simples, bem o sabemos, e os geógrafos melhor ainda, razão pela qual a sua geografia abandonou os fatos particulares para se voltar para a combinação de fatores.
Ao delinearmos esta evolução do pensamento geográfico, não nos afastamos do problema do valor da geografia. Pois esta evolução basta para provar que a geografia não é simples enumeração. A lista telefónica do Rio de Janeiro é hoje mais extensa do que em 1914, mas continua a ser uma seqüência de nomes. Novas estações ferroviárias foram inauguradas entre o Rio e São Paulo, mas sua simples enumeração continua a ser uma enumeração desprovida de inteligência. Se a geografia se reduzisse apenas a nomenclatura, sem conteúdo filosófico, continuaria imutável. A forma enumerativa nada mais é do que o fruto da ignorância crassa do que é a geografia. Além disso, admite-se facilmente que as operações mnemônicas não sejam as únicas atividades intelectuais capazes de orientar o geógrafo que estuda as relações dos complexos. A interpretação do encadeamento dos fatos depende do trabalho intelectual, no qual o encadeamento das idéias é primordial. Podemos perceber isso acompanhando a análise do mecanismo intelectual na pesquisa geográfica tal como aparece num artigo do professor Henri Baulig.
A primeira fase seria a da explicação. Faz-se mister tomar a palavra no seu sentido etimológico, isto é, desenvolver, desenrolar (explicare em latim designa a ação de desenrolar o rolo de pergaminho manuscrito). Depois de ter explicado, o geógrafo deve compreender, isto é, deve reunir todos os fatos por ele desenrolados, procurando torna-los em conjunto, como uma unidade. Se, a esta interpretação humanista do método de pensamento do geógrafo, preferir-se outra, poder-se-ia dizer que o geógrafo se encontra em face dum complexo geográfico, como um mecânico diante de um motor desconhecido cuja disposição quisesse conhecer. É necessário desmontar as peças que compõem o motor, tendo porém o cuidado de identificar cada elemento, de ver como se ajusta a outro, de conhecer-lhe a função e avaliar-lhe a importância no conjunto. Este trabalho de desmontagem do motor é a explicação do complexo geográfico. Depois de identificadas todas as peças, numera­das, classificadas, nosso mecânico se encontra melhor preparado para conhecer de que modo a sua união constitui um motor e como funciona este. Ele "compreende" porque pode, segundo a análise, apreender as relações dos diferentes elementos entre si e graças a esse primeiro trabalho, descobrir como cada um contribui para a boa marcha do conjunto.
Tais são os objetivos e as diretrizes da geografia e de seu método. Uma vez feita esta indispensável mise-au-point torna­se mais fácil compreender que o ensino da geografia é capaz de auxiliar a expansão das funções intelectuais dos jovens. Deve ficar bem claro ser esse o papel fundamental do ensino, e muito particularmente do ensino secundário. Enviamos nossos filhos às escolas não somente para que encham suas cabeças, mas principalmente para que o façam bem. Esperamos dos professores que ensinem a nossos filhos literatura, matemática, línguas mortas ou vivas, história, geografia, ciências físicas e naturais, mas também exigimos que esses professores lhes desenvolvam as faculdades intelectuais ainda embrionárias. Da mesma forma que o treinador de desportos põe os músculos em condições de trabalho, o professor, treinador espiritual, tem o terrível encargo de ensinar os alunos a observar, refletir, criticar e escolher. Aquilo que, no ensino, não permitisse desenvolver essas faculdades mereceria ser abolido dos programas sem o menor escrúpulo. Vamos tentar demonstrar como a geografia responde as exigências dum ensino que mais procura formar a mente do que entulhar cérebros.
 Em todas as séries escolares, mas sobretudo nas primeiras, o professor de geografia deve procurar desenvolver nos alunos o espírito de observação e de precisão. 0 resultado é facilmente obtido acostumando-se a criança a examinar e explicar com atenção um mapa, por mais simples que seja, uma figura, uma projeção fotográfica. 0 aluno deve ser exercitado progressivarnente na localização precisa e na descrição do documento que lhe é apresentado. Não seria conveniente que esse documento fosse muito científico e complicado. 0 professor deve, ao contrário, limitar-se ao menos no começo, a oferecer somente mapas e figuras muito simples, pedindo aos alunos que descrevam primeiro os principais elementos. Somente depois disso poderá pas­sar às minúcias e finalmente será possível tentar fazer os alunos descobrirem e exporem as relações existentes entre os diferentes fatos anteriormente conhecidos, descritos e identificados. A tarefa é modesta; alguns a julgarão mesmo excessivamente modesta; e a tacharão de pueril. Isso porque se esquecem de sua própria infância e não sabem que um aluno das primeiras séries ginasiais [atuais 5a. e 6a. séries do ensino fundamental] possui ainda uma extraordinária juventude intelectual e suas faculdades de raciocínio são ainda extremamente limitadas. Nesse grau de ensino, o papel do professor de geografia assemelha-se ao do professor de línguas, que ainda não pretende de seus alunos comentários literários, mas pede-lhes sobretudo exercícios de redação elementares, descrições, narrativas. Ora, o menino dotado mais de imaginação do que de raciocínio, presta atenção às coisas pequenas, aos pormenores secundários, negligenciando as grandes linhas e raramente sendo capaz de abranger o conjunto à primeira vista. É portanto nesse sentido que se deve dirigi-lo, levando-o pro­gressivamente a adquirir uma visão de conjunto completada pela precisão da descrição. Uma boa carta mural, uma fotografia escolhida com inteligência e projetada para a classe, ou, na sua falta, as ilustrações dos bons manuais de geografia, prestam-se facilmente a este gênero de exercícios. Não é necessário dizer que esse treinamento não deve ser reservado exclusivamente aos alunos mais novos. Convém adotá-lo até nas últimas classes colegiais [atual ensino médio]. Para evitar a monotonia e, aproveitando o crescente amadurecimento intelectual dos alunos, os profes­sores apresentarão documentos mais complexos e procurarão obter observações cada vez mais agudas. Conhece-se o bom professor pela sua arte em graduar as dificuldades e em saber adaptar o ensino a idade mental e a qualidade de seus alunos. Não só a faculdade de observação aproveita o ensino dageografia, mas também ao espirito crítico, pois o jovem interrogado sobre uma carta ou uma fotografia é obrigado a escolher entre o essencial e o secundário. Aprende assim a raciocinar com método e a exercitar-se na escolha dos dados apre­sentados à sua observação. Ao mesmo tempo sua mente habitua-se a reconhecer as relações entre os fatos. Relações muito simples no começo; como por exemplo, entre um certo clima e certa produção vegetal; depois, relações mais complexas que não são exclusivamente de causa e efeito, mas que ensinam que nem tudo é um jogo de ações recíprocas. Chega-se assim, muito devagar, e sempre com a grande preocupação de não ter excessiva ambição nem de fazer ciência, a apresentar a compreensão dos alunos complexos geográficos que eles só podem compreender por meio de um trabalho de raciocínio crítico. Em tudo isso o professor fugirá como da peste do uso de termos eruditos e excessivamente técnicos; não convém que fale de "complexo geográfico", a menos que sinta sua classe em condições de perceber o valor filosófico do conceito. O professor de geografia no curso secundário tem obrigação de ser muito prudente e de não pretender pensar em preparar pequenos geógrafos. Sua posição é a mesma de todos os professores de ginásio, cuja missão não é recrutar especialistas desta ou daquela matéria, mas colaborar com todos os seus colegas na formação de mentes capazes de pensar e de criticar.
Finalmente, o ensino da geografia desenvolve o senso do tempo e ajuda a compreender a noção da evolução. Relevo, solos, gêneros de vida, modos de ocupação do solo, correntes de comércio, potência das nações, tudo evolui e cada capítulo de um curso de geografia consigna esta constante transformação, indicando-lhe simultaneamente os fatores e as conseqüências. Esse aspecto da geografia, portanto, ressalta que o ensino bem feito dá aos jovens o senso da realidade e ao mesmo tempo o da evolução. Pode ajudá-los a se compenetrarem de sua posição exata na curva do tempo; de herdeiros do pas­sado e germes do futuro. Resultado esse obtido não por meio de frases e discursos que os jovens não escutariam ou de que pouco se lembrariam, mas por fatos exatos cuja lição aparece automaticamente. Tanto mais que os alunos estão numa idade em que fazem questão de ser modernos e realistas.
Senso de realidade, sentimento de evolução, compreensão da complexidade das relações não são apenas aquisições da inteligência, mas poderosos auxiliares que positivam as qualida­des morais. Outro aspecto favorável do ensino geográfico moderno deve agora prender nossa atenção: seu valor no ensino cívico e moral. Jovens alunos ou alunas de colégio estão em vésperas de se tornarem cidadãos, eleitores num grande país moderno. Ao se depararem com os problemas do país, estes jovens cidadãos devem ter, quando não uma opinião definitiva, ao menos urna idéia de sua importância. Não se concebe que o ensino, a que compete preparar os homens, não seja igualmente uma escola de cidadãos. Outros professores, além dos de geografia, contribuirão para formá-los. Será prova de imperialismo geográfico perguntar-se se não cabe ao geógrafo a parte essencial desse preparo cívico? Um jovem brasileiro aprenderá na aula de geografia o que é o problema das secas ou a questão do esgotamento dos solos, pois o ensino da geo­grafia física e o da geografia do Brasil darão ao professor a oportunidade de discuti-los. As aulas de geografia humana serão outras tantas ocasiões para facilitar o conhecimento dos problemas de imigração, de colonização, de dispersão ou de agrupamento de populações. Serão conhecidos na aula de geografia todos os tipos humanos do Brasil, não como temas literários, mas como seres vivos em meios naturais definidos, representando papéis definidos na vida social do país, exercendo atividades econômicas diversas na economia nacional. A eficácia da geografia econômica não será menor. Certamente não se trata dessa caricatura de geografia econômica que consistia em enumerar os países e seus produtos, classificando-os por or­dem de grandeza, como o locutor que proclamasse os resultados duma corrida de cavalos. Referimo-nos a uma geografia econômica explicativa que, estreitamente ligada a realidade, indique problemas e tendências. Não havendo tal ensino, e não sendo dado por professor adequadamente preparado, então onde, quando e como o jovem cidadão apreenderá o que é o problema de industrialização do Brasil, em que consiste seu comércio exterior, do qual depende tão de perto seu nível de vida? Onde, quando e como conhecerá algo a respeito da economia de outros países, das rivalidades econômicas, dos aspectos do mundo que condicionam a vida de cada nação?
  Convém que o ensino acompanhe as transformações do globo. Outrora talvez a geografia não coubesse ação tão relevante na formação do futuro cidadão, pois os problemas políticos possuíam então a importância que atualmente adquiriram as questões econômicas. Os cidadãos dos vários países não se manifestavam, como em nossos dias, por meio do voto, cujas conseqüências podiam influir na evolução das economias de modo tão decisivo. Para um mundo moderno convém um en­sino moderno e a geografia é uma interrogação permanente do mundo. A evolução do ensino da geografia, nesse sentido, é facilitada pelos contactos de todo o gênero que tem a mocidade com os problemas de nossos dias. A conversação em família, o rádio, a televisão, os jornais, as atualidades cinematográficas mergulham os jovens, e as vezes até as crianças, nesse banho cotidiano de inquietação, pelo menos no que se refere aos debates econômicos. Não é difícil ao professor aproveitar-se disso para animar o seu ensino. Os alunos encontrarão aí uma prova de que a vida não pára na porta da classe, que deixará de ser um meio artificial. A ânsia de viver dos jovens ajusta-se mal ao divórcio entre a rua e sua agitação e a escola que se esclerosa. Eles adquirem urna espécie de desprezo protetor pelos mestres que vivem fora do tempo e seu realismo os afasta do esforço intelectual que podem, de pleno direito, confundir com meros jogos de espírito. Acrescentemos que é desejável que o ensino venha esclarecer e ordenar a confusão que as informações diretas criam nos cérebros jovens.
A geografia encontra no ensino cívico sua função de representar o mundo, de que é detentora, na qualidade de trabalho intelectual. Daí o seu valor moral, pois, contribuindo para a compreensão do mundo, revela tudo o que une os homens: é uma lição de solidariedade humana. Nem só os diferentes aspectos da economia brasileira devem ser ensinados, mas também, ao jovem gaúcho, como vive, como luta seu irmão sertanejo nordestino; o jovem carioca ou paulista deve ser levado para fora da atmosfera urbana a fim de conhecer e sentir a vida de seus patrícios, colonos de fazendas ou pescadores amazonenses. Uma aula sobre o algodão nos Estados Unidos ou sobre a índia moderna, uma exposição sobre o equipamento industrial europeu, ensinam mais a respeito da unidade do mundo de que todas as homílias tradicionais.
Graças ao seu campo de estudo, ao seu método de trabalho, a geografia tem lugar no ensino. Tem-no por ser uma ciência moderna, produto de um mundo que é o mesmo em que vivem os jovens. Ela desenvolve as suas qualidades intelectuais e morais, e dá-lhes um conhecimento dos mais úteis para o pleno desenvolvimento de suas personalidades no quadro em que devem desabrochar. A geografia é uma das formas do humanismo moderno.
 É grande a defasagem entre o ensino de tal geografia e o que atualmente é dado em grande número de classes. Aceita-se de boa mente que a causa disso está menos na geografia do que naqueles que acreditam ensiná-la. Fosse melhor o conhecimento dos trabalhos e concepções geográficas atuais e não se pensaria em reduzir o ensino da geografia; dar-se-ia, ao con­trário, mais atenção aos processos de recrutamento e formação dos professores. O mal não está na disciplina ensinada, mas na forma como é feito esse ensino, por professores cujos conhecimentos e noções teóricas estão aquém do atual estado da ciência. Se é lícito interpretarmos o pensamento de nossos próprios colegas, diria que os geógrafos são os primeiros a de­sejar unia mudança no ensino da geografia, que julgam possí­vel, desde que se entregue, progressivamente, um número maior de cadeiras a professores especialmente preparados, isto é, professores que tenham recebido um bom ensino de urna geografia diferente da de 1850. Reconhecido o valor formativo da geografia, e lembrando que os programas de países como os Estados Unidos, Inglaterra, França ou Alemanha não reduzem o ensino desta disciplina, é lógico pensar que os jovens brasileiros também merecem aprender geografia; e que têm o direito de aprendê-la em boas condições.
Ninguém pode improvisar-se professor. Salvo casos excepcionais, aquele que exerce urna certa profissão não está, só por isso, apto a ensinar uma disciplina científica, da qual nada aprendeu desde a juventude. Nenhum professor de geografia pensaria em improvisar-se engenheiro ou advogado. A recíproca deveria ser verdadeira. É quase um lugar comum comparar o ensino a um apostolado, mas ninguém pensaria em improvi­sar-se padre, e os padres que se dedicam ao ensino realizam estudos especializados e rigorosos. A qualidade do ensino lucrará com o severo preparo dos professores em cada especialidade e a proibição absoluta de ensinar toda e qualquer discipli­na ao indivíduo que não recebeu uma formação científica e didática. Dizem que um licenciado em ciências sociais pode improvisar-se professor de geografia. Mas que conhecimentos de geografia física possui ele? Que conhece a respeito das relações complexas sobre as quais já falamos longamente? É óbvio que se reconhecermos no sociólogo capacidade suficiente para ensinar geografia, conviria dar a mesma possibilidade ao botânico ou ao geólogo, e, reciprocamente, autorizar o geógrafo a ensinar sociologia, botânica ou geologia. A confusão chegaria ao auge e os alunos teriam tudo a perder. Desde que as poucas faculdades de filosofia bem equipadas existentes no Brasil formem licenciados em geografia, o bom senso sugere que se lhes entregue o ensino de sua disciplina e que se coloquem essas faculdades em condições de fornecer um número cada vez maior de verdadeiros professores. (...)

De José W. Vesentini: - Excertos selecionados do ensaio de Monbeig intitulado “Papel e valor do ensino da geografia e de sua pesquisa”, publicado originalmente in Boletim Carioca de Geografia, ano VII, 1954, nos. 1 e 2 ; e republicado como um capítulo do livro Novos Estudos de Geografia Humana Brasileira, São Paulo, Difel, 1957. A seleção, transcrição e também os grifos, em itálico e/ou negrito, são de nossa autoria, J.W.V.)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mudanças climáticas no Brasil devem trazer prejuízo e pobreza


Segundo sumário executivo do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas foi divulgado no Rio de Janeiro 

(foto: Wilson Dias/ABr)
Por Fred Furtado, do Rio de Janeiro- 29/10/2013-
Da Agência FAPESP – Secas mais intensas, prejuízo na agricultura, diminuição do pescado, reformulação da matriz energética – esses são alguns dos impactos que as mudanças climáticas devem gerar no Brasil. E os mais afetados serão os brasileiros de classes econômicas menos favorecidas.
Esse é o cenário descrito no sumário executivo do Grupo de Trabalho 2 (GT2) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), divulgado sexta-feira (25/10) na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), no Rio de Janeiro. O documento aborda os impactos das mudanças climáticas nos sistemas naturais e socioeconômicos, bem como suas consequências, além de opções de adaptação ao novo cenário.
“Esse relatório mostra que os impactos já estão acontecendo e é preciso tomar decisões quanto a isso de imediato. Quanto mais se espera, maior e mais caro fica o problema”, afirmou Suzana Kahn, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente do comitê científico do PBMC.
Para ela, o relatório também fornece elementos para que os governantes brasileiros planejem suas respostas de maneira a diminuir os impactos e os custos, bem como para melhorar a inclusão social. “Quem sempre sofre mais e tem menos chance de se adaptar é a população pobre”, declarou Kahn.
O primeiro sumário executivo do Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) do PBMC foi divulgado no dia 6 de agosto durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), organizada pela FAPESP, em São Paulo (leia mais em http://agencia.fapesp.br/17840).
Recursos hídricos
A água é um elemento-chave na questão dos impactos das mudanças climáticas. Segundo o sumário divulgado na sexta-feira, as alterações nos regimes de chuva devem levar a secas e enchentes mais frequentes e intensas, podendo também ter impacto sobre a recarga de águas subterrâneas.
As taxas de vazão dos rios também sofrerão variação. No leste da Amazônia e no Nordeste, as perdas podem chegar a 20%, sendo que na bacia do Tocantins o valor é de 30%. Já na do Paraná-Prata, a expectativa é de aumento de 10% a 40%.
“É um problema muito sério. Segundo a Agência Nacional de Águas, mais de 2 mil municípios terão problema de abastecimento de água em 2015”, alertou Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e coordenador do GT2.
Nas áreas costeiras, o aumento do nível do mar deve intensificar as inundações e os processos erosivos. Além disso, o aumento da temperatura e da acidificação dos oceanos deverá ter impacto negativo sobre os ecossistemas marinhos e sobre a pesca.
“Podemos ter uma perda no volume de pescado de 6%, em média. Imaginem quantas famílias de pescadores serão atingidas”, observou Assad. O estudo prevê ainda a perda de biodiversidade em ecossistemas aquáticos e terrestres, levando ao desaparecimento ou à fragmentação de hábitats .
Agricultura e energia
A atividade agrícola tende a ser afetada diretamente pelas mudanças climáticas. Com o aumento da temperatura e a redução da quantidade de água, áreas de baixo risco para a agricultura vão se tornar de alto risco, perdendo valor e forçando a população rural local a migrar para os centros urbanos.
“No Ceará, por exemplo, isso pode acarretar uma redução de até 60% no produto interno bruto agrícola e no valor das terras”, ressaltou o coordenador do GT2.
Outro problema sério são os efeitos sobre pragas e doenças que atacam as culturas. A alta de temperatura e umidade serão condições ideais para a eclosão de fungos.
Já o setor energético pode ser afetado de diversas formas pelas mudanças climáticas. Segundo Assad, é necessário ampliar a matriz energética, pois haverá problemas na geração de energia hidrelétrica em razão das alterações na oferta de água.
Para ele, a abertura para alternativas energéticas mais limpas ainda é tímida, enquanto há estímulo para fontes como gás de xisto e termelétricas a carvão. “Onde estão os incentivos para as energias solar, eólica e de marés? Continuamos insistindo na vanguarda do conservadorismo energético”, destacou.
Cidades e saúde
As cidades também serão bastante afetadas, com alguns fenômenos já em andamento, como os deslizamentos de encosta e os alagamentos causados por deficiências no sistema de drenagem urbano.
“Não preciso lembrar o que vai acontecer em janeiro e fevereiro no Rio de Janeiro e em Salvador. Nenhuma atitude foi tomada nos últimos anos para resolver esse problema”, criticou Assad.
Em termos de transporte, o modal utilizado pelo país estaria totalmente equivocado, principalmente o urbano, de acordo com o documento. Mudar isso, especialmente no quesito transporte de carga, faria o Brasil dar um grande salto na emissão de gases de efeito estufa.
Na questão de saúde humana, o país estaria extremamente vulnerável por conta de ondas de calor e de frio, que estariam relacionadas a uma maior mortalidade. Essas condições também podem ser ideais para a proliferação de vetores de doenças tropicais, como mosquitos, levando a uma expansão de males como a dengue.
Para o coordenador do GT2, reduzir os problemas relacionados à água, bem como à subsistência e à pobreza são igualmente críticos. “Essas são ações prioritárias que o Brasil tem que atacar. Para isso, governo, indústria, comércio e sociedade precisam estar envolvidos em uma resposta nacional adequada”, concluiu Assad. 
Mais informações: http://www.pbmc.coppe.ufrj.br/pt/

terça-feira, 24 de setembro de 2013

População


Mudanças na dinâmica populacional paulista 

24/09/2013      Por Noêmia Lopes 

Estado de São Paulo tem aumento da movimentação de estrangeiros para o interior e diminuição da migração interestadual, aponta estudo da Unicamp (USP Imagens)
Agência FAPESP – Na década de 1980, os estrangeiros que chegavam ao Estado de São Paulo se concentravam na região metropolitana da capital paulista. Hoje, há um movimento significativo de grupos como bolivianos, paraguaios, chineses e coreanos partindo em direção a diferentes regiões do interior, para o trabalho em setores agrícolas, industriais e do comércio. 
Os próprios paulistanos já vêm engrossando o movimento de interiorização da população desde os anos 1980, movimento que agora ganha impulso por conta de fatores como saturação do mercado de trabalho na cidade de São Paulo, aquecimento de segmentos variados no interior e busca por melhor qualidade de vida. Os mesmos motivos fazem crescer a migração de retorno aos estados de Minas Gerais e Paraná, bem como a movimentação de brasileiros entre outros estados que não o de São Paulo.
Essas são algumas das conclusões do Projeto Temático Observatório das Migrações em São Paulo, apoiado pela FAPESP e coordenado por Rosana Baeninger, professora do Departamento de Demografia e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp).
O conjunto dos dados levantados, desde 2009, por Baeninger, 16 pesquisadores e 38 alunos de mestrado, de doutorado e de iniciação científica deu forma à coleção de 12 volumes Por Dentro do Estado de São Paulo, lançada em agosto.
“Nosso objetivo foi analisar a configuração dos movimentos migratórios atuais a partir das raízes históricas desses processos. Para tanto, investigamos a formação social paulista desde o século 19, na passagem para o século 20 e ao longo dele, chegando ao início do século 21”, afirmou Baeninger, à Agência FAPESP.
As informações até 1950 foram obtidas a partir da naturalidade registrada em certidões de casamento, de anuários demográficos sanitários e de arquivos da Hospedaria dos Imigrantes, na cidade de São Paulo. A partir de então, foram analisadas séries históricas dos censos demográficos e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
“Contudo, como o censo demográfico mais recente contém informações que vão somente até 2010, entender as migrações contemporâneas, inclusive as ocorridas nos três últimos anos, exigiu uma série de visitas a campo, tanto nas regiões de origem quando na de destino das migrações”, contou Baeninger.
Dois exemplos de viagens como essas foram investigações sobre piauienses que deixam o Piauí para trabalhar em plantações paulistas de cana-de-açúcar e de laranja e bolivianos que partiram de seu país em direção não apenas à região metropolitana de São Paulo, como era de costume, mas também a polos têxteis como Indaiatuba e Americana.
Durante as visitas, os pesquisadores do Observatório das Migrações fizeram entrevistas qualitativas nas prefeituras e em órgãos vinculados à assistência social, questionando os profissionais sobre como percebem a chegada ou a partida de moradores.
De acordo com Baeninger, tais dados foram complementados com entrevistas biográficas feitas com os próprios migrantes internos e internacionais. “Pedíamos que nos contassem suas trajetórias, começando sempre com relatos mais recentes e contando quando e com quem migraram, onde moraram, entre outros aspectos.”
Razões das mudanças Em relação à migração internacional, Baeninger afirmou que as novidades se explicam por conta da inserção de novas regiões paulistas na lógica do capital internacional – ou seja, mais investimento externo, mais demanda por mão de obra.
“Profissionais bem qualificados continuam chegando a polos de alta tecnologia como Campinas, vindos de países como Alemanha e França. Mas agora há também uma interiorização da mão de obra não qualificada que antes se concentrava na capital”, explicou a pesquisadora.
Nesse cenário, enquadram-se bolivianos e paraguaios na indústria têxtil de Indaiatuba e Americana; chineses no comércio de Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto; coreanos na indústria de semijoias e bijuterias de Limeira; e haitianos na construção civil de diferentes regiões.
A interiorização também cresce entre brasileiros, que continuam partindo da região metropolitana. “As oportunidades vêm florescendo no interior desde os anos 1970. Agora, outros fatores entram em jogo, como o aumento da violência na capital e a busca por uma melhor qualidade de vida”, disse Baeninger.
Tais motivadores também levam ao aumento da migração de retorno aos estados de Minas Gerais e Paraná, bem como à diminuição da migração dos demais estados para São Paulo. Sobre esse último aspecto, a pesquisadora afirmou que “trabalhadores que potencialmente migrariam ficam em suas regiões, quando aquecidas, ou seguem o capital internacional por diferentes estados do país”.
Novas agendas De acordo com Baeninger, os dados coletados abrem novas agendas para os estudos populacionais. “A migração interna (entre estados) e a externa (de estrangeiros) estão cada vez mais inter-relacionadas e precisamos estudá-las concomitantemente. A formação social paulista – primeiro, trazendo imigrantes e, depois, buscando brasileiros em outros estados – contribuiu para que separássemos os dois tipos de movimentação. Mas somente uma visão global nos permitirá entender as novas territorialidades e regionalizações no século 21.”
Ainda segundo Baeninger, essa compreensão é fundamental para subsidiar políticas públicas. O Observatório das Migrações já promoveu, nesse sentido, quatro edições do Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais, destinado a gestores municipais de diferentes secretarias, paulistas ou não. “Publicamos editais e convidamos os participantes a pensar sobre a importância das dinâmicas populacionais para a gestão”, disse.Um dos aspectos que Baeninger e seus parceiros consideram relevante do ponto de vista social é a criação de políticas contra posturas e atitudes preconceituosas. Segundo a pesquisadora, “os volumes migratórios são muito menores do que já foram no passado. Mas, por se destinarem em grande parte a áreas urbanas, são alvo de mais atenção e, infelizmente, de certo preconceito”.
Esse e outros temas devem seguir na pauta dos órgãos da Unicamp envolvidos no Observatório das Migrações – o próprio Núcleo de Estudos de População, o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas, o Instituto de Economia, a Faculdade de Ciências Aplicadas e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – e de colaboradores externos vinculados à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Marília, à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e à Faculdade Anhembi Morumbi.
Os títulos dos 12 volumes publicados são: Estado de São Paulo – Regiões Metropolitanas e Polos Regionais; Regiões Metropolitanas; Polos Regionais – São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto; Polos Regionais – Bauru, São José do Rio Preto, Araçatuba e Presidente Prudente; Região de Limeira; Regiões Canavieiras; Retrato Paulista do Censo Demográfico de 2010; Povos Indígenas – Mobilidade Espacial; Migrações Internacionais; Processos Migratórios no Estado de São Paulo – Estudos Temáticos; Imigrantes Internacionais no Pós-Segunda Guerra Mundial; e Região Central.

terça-feira, 30 de julho de 2013

IDHM

IDH municipal do Brasil cresce 47,5% 



em 20 anos, aponta Pnud



PESQUISE O IDH DOS MUNICIPIOS DO BRASIL EM:


País estava no nível 'muito baixo' de desenvolvimento humano em 1991.
Com resultado de 2010, divulgado nesta segunda (29), saltou para 'alto'. 



Gráfico do IDHM no Brasil, na comparação entre 1991 e 2010 (Foto: G1)
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do Brasil cresceu 47,5% entre 1991 e 2010, segundo o "Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013", divulgado nesta segunda-feira (29) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). De acordo com a publicação, a cidade com o IDHM mais elevado é São Caetano (SP), e os municípios que tiveram maior evolução no quesito "renda" são das regiões Norte e Nordeste.
A classificação do IDHM geral do Brasil mudou de "muito baixo" (0,493), em 1991 para "alto desenvolvimento humano" (0,727), em 2010. Em 2000, o IDHM geral do Brasil era 0,612, considerado "médio".
O IDHM é um índice composto por três indicadores de desenvolvimento humano: vida longa e saudável (longevidade), acesso ao conhecimento (educação) e padrão de vida (renda).
O IDHM do país não é a média municipal do índice, mas é um cálculo feito a partir das informações do conjunto da população brasileiras em relação aos três indicadores. O IDH municipal também tem critérios diferentes do IDH global, que o Pnud divulga anualmente e que compara o desenvolvimento humano entre países.
Entre os três indicadores que compõem o IDHM, o que mais contribuiu para a pontuação geral do Brasil em 2013 foi o de longevidade, com 0,816 (classificação "desenvolvimento muito alto", seguido por renda (0,739; "alto") e por educação (0,637; "médio").
Apesar de educação ter o índice mais baixo dos três, foi o indicador que mais cresceu nos últimos 20 anos: de 0,279 para 0,637 (128%). Segundo o Pnud, esse avanço é motivado por uma maior frequência de jovens na escola (2,5 vezes mais que em 1991). No indicador longevidade, o crescimento foi 23% entre 1991 e 2010; no caso de renda, a alta foi de 14%.
Categoria 'muito baixo' encolhe
Em 20 anos, 85% dos municípios do Brasil saíram da faixa de “muito baixo desenvolvimento humano”, segundo classificação criada pelo Pnud. Atualmente, 0,57% dos municípios, ou 32 cidades das 5.565 do país, são consideradas de “muito baixo desenvolvimento humano”.
De acordo com os dados do "Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013", 85,8% dos municípios brasileiros faziam parte do grupo de “muito baixo desenvolvimento humano” em 1991. Em 2000, esse número caiu para 70% e, em 2010, despencou para 0,57% .
As faixas classificatórias do Índice de Desenvolvimento Municipal (IDHM) são "muito baixo" (0 a 0,499); "baixo" (0,500 a 0,599); "médio" (0,600 a 0,699); "alto" (0,700 a 0,799) e "muito alto" (0,800 a 1)
.

Filme

Sugestão: O olhar de Mafalda sobre a sociedade


Mafalda – O Filme (1982)

"Mafalda, la película" é um animação baseada nas tirinhas da turma da Mafalda, criação do cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, sobre uma menina (Mafalda) preocupada com a Humanidade e a paz mundial que se rebela com o estado atual do mundo. O filme traça um perfil básico de todos os personagens clássicos. O vídeo completo está disponível no Youtube e aqui no Blog de Geografia. Aperte o play e confira:
Mafalda – O Filme
Áudio original em espanhol e legendado em português
(Mafalda – O Filme. Argentina, 1982, 85 min – Direção: Carlos D. Marquez)

Leia também no Blog de Geografia:
As tiras da Mafalda: conteúdos de Geografia em quadrinhos
Mafalda - Quino - E este é o mundo da Mafalda.

Ferramenta multimídia

Dica de site educativo: 
Informação, jogos, audiovisual sobre cidadania, geografia, história, literatura, saúde....e muito mais!


sábado, 6 de julho de 2013

Novidade

IBGE divulga novos mapas de 214 municípios brasileiros

Por Alexandre Scussel 

Novos mapas municipais mostram que Brasil tem agora 5.570 municípios


Encontram-se disponíveis, na página do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), osmapas de 214 municípios brasileiros, a maioria (209) por alterações promovidas em seus limites territoriais e cinco deles como novos municípios instalados em 2013: um no Pará (Mojuí dos Campos), dois em Santa Catarina (Pescaria Brava e Balneário Rincão), um no Rio Grande do Sul (Pinto Bandeira) e um em Mato Grosso do Sul (Paraíso das Águas). Os cinco municípios instalados este ano já apresentavam legislação aprovada, e seus prefeitos foram eleitos no pleito realizado em 2012.
Além da criação de municípios – que eleva o número dessas unidades territoriais, no Brasil, para 5.570 –, os mapas refletem mudanças na legislação, alterando os limites municipais, e ajustes cartográficos comunicados oficialmente ao IBGE, no âmbito de convênios mantidos com órgãos estaduais.
Essas alterações territoriais, promovidas desde a divulgação dos resultados do Censo Demográfico 2010 e encaminhadas ao IBGE até 30 de abril de 2012, já haviam sido incorporadas à metodologia das Estimativas Populacionais de 2012.
Para download dos mapas, acesse ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas_estatisticos/2012.